Decisão tomada: venha o estudo que a suporte!

Depois de a Câmara ter decidido acelerar o lançamento da obra do parque de estacionamento de Camões/Caldeiroa para condicionar a proposta de André Coelho Lima, eis que agora a suporta com um “estudo prévio”.

Primeiro faz-se, depois estuda-se. Aqui está o estudo, com honras de conferência de imprensa.

Após uma rápida leitura, três notas:

  1. Estudo feito à medida das escolhas da Câmara Municipal, “comme d’habitude”, apenas analisando as “opções” por ela propostas e ignorando as alternativas em discussão que não lhe agradam – nomeadamente a solução do parque de estacionamento no Largo do Toural;
  2. Um dos maiores parques de estacionamento existentes em Guimarães é o Campo de São Mamede, contribuindo com 250 lugares para o estacionamento de proximidade ao Centro Histórico;
  3. Qualquer solução de estacionamento que surja de futuro estará condicionada pela decisão da Câmara de construir o parque de Camões/Caldeiroa (decisão tomada em Maio de 2017), e será sempre “do domínio da decisão política“.

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Parque de Camões: Câmara avança com projeto irreversível que não previa há meio ano

O Partido Socialista está apressado em tornar irrevogável o parque de estacionamento de Camões. Adjudicou hoje em reunião de Câmara a obra que há meio ano não previa fazer.

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Excerto do Plano Plurianual de Investimentos da CMG para 2017, antes da revisão de Abril de 2017 que acrescenta para este ano a verba que antes carecia para a concretização efetiva do projeto.

Em Novembro de 2016, quando aprovou o Orçamento para 2017, a Câmara não previa este ritmo da obra. A Câmara apenas decidiu acelerar este projeto quando apresentou o orçamento retificativo, dias depois de André Coelho Lima ter apresentado uma proposta alternativa para o estacionamento na cidade.

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Quarteirão da rua da Caldeiroa/Liberdade/Camões visto no Google Maps.

E aqui está o cerne da questão: havendo, como em poucas questões, duas propostas tão claramente divergentes e até antagónicas quanto a um tema estratégico para Guimarães, porque opta a Câmara por retirar aos Vimaranenses a capacidade de decidirem sobre o tema, comprometendo a Câmara com uma solução que gera tanta controvérsia?

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Mapa da implementação do parque de estacionamento no quarteirão Caldeiroa/Liberdade/Camões, retirado do blogue “Não à Morte do Quarteirão da Caldeiroa-Camões”.

Que diferença fazia manterem tudo como estava, sem comprometer a Câmara com uma enorme fatura e a cidade com uma obra com impacto irreversível no património, permitindo que as eleições clarificassem o rumo que os Vimaranenses pretendem?

Da requalificação do Toural… e Campo da Feira!

André Coelho Lima apresentou há umas semanas a sua primeira proposta para o desenvolvimento urbano de Guimarães. Será sem dúvida mérito seu a discussão pública que se gerou à volta da proposta, com as discordâncias e concordâncias que mereceu. Desde antes de 2012 que não me recordo de ver uma discussão tão viva na cidade. E isso é muito bom sinal da vivacidade de Guimarães.

O pomo da discórdia tem sido, como expectável, a proposta para o Largo do Toural. Os detratores da proposta argumentam com a necessidade da obra, com ideias sobre a mobilidade contraditórias com a realidade existente, e defendendo existir estacionamento de sobra. (Já agora, seria interessante saber e conhecer os estudos que a Câmara dispõe para sustentar as opções que tomou; já os procurei, e encontro “memórias descritivas” dos projetos, mas nunca a sua sustentação argumentada.)

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Fotografia retirada daqui.

A pedonalização do Toural e ruas adjacentes parece merecer maior aceitação, ainda que sem estacionamento de proximidade…

Um ponto que, por ser menos falado, parece merecer maior concordância é a proposta para o Largo República do Brasil (vulgo Campo da Feira). A proposta visa a criação de um parque de estacionamento subterrâneo para 300 lugares na parte mais alta deste Largo, aproveitando de alguma forma o desnível natural do mesmo. Ao mesmo tempo, altera a circulação neste largo, estendendo a parte pedonal do mesmo da igreja dos Santos Passos ao primeiro lanço do jardim, permitindo assim o seu usufruto. A circulação automóvel no sentido descendente da Avenida D. João IV a fazer-se pelas traseiras desta igreja – uma ideia, aliás, já antiga.

Esta ideia de um maior consenso para este parque foi-me reforçada esta semana pelo artigo de António Mota Prego no Comércio de Guimarães. Nela, defende a construção de parque semelhante, argumentando até que “está em estudo”. Será que António Mota Prego nos está a dar a conhecer em primeira mão (qual Marques Mendes!) o resultado do estudo encomendado pela Câmara?

Mas atentemos ao que escreve:

um outro [parque de estacionamento] está também em estudo, a muito pouca distância do centro histórico e do Toural, seja  com aproveitamento de diferença de cotas da alameda de S. Dâmaso e sem prejuízo  para da sua atual configuração e ocupação vegetativa e arbórea

Ficam dúvidas quanto à capacidade de salvaguarda “da atual configuração e ocupação vegetativa e arbórea” na Alameda. Apesar disso, digno de assinalar é o consenso obtido no essencial da proposta da coligação Juntos por Guimarães.

 

A mobilidade na cidade I: o problema

André Coelho Lima apresentou esta semana uma primeira proposta para o seu projeto de cidade, que propõe uma serena revolução no espaço urbano, com estacionamento subterrâneo no Toural e Campo da Feira e reorganização da circulação automóvel na zona.

Muitas têm sido as opiniões emitidas sobre a proposta. Mas vamos pelo princípio: a mobilidade na cidade é um problema? Existe falta de estacionamento na cidade? Há necessidade de alteração do desenho atual da circulação automóvel?

A meio ver a resposta a todas estas questões é uma: sim.

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Printscreen do Google Maps com indicação de live traffic às 15:30 de 29/03/2017.

A Câmara Municipal de Guimarães concorda também. Tem construído diversos parques de estacionamento na periferia do centro nevrálgico da cidade, alegando que tem de haver mudanças de hábitos. Estes parques de estacionamento caracterizam-se por uma dimensão pequena (Mumadona e Plataforma das Artes) e média (estádio). Mas estas soluções têm sido insuficientes, o que motivou a apresentação do projeto de parque de estacionamento para a Caldeiroa.

E esta insuficiência tem sido também reconhecida pela Câmara Municipal, embora sem o assumir. Senão, como explicar a mudança na política de tolerância zero ao estacionamento irregular neste mandato autárquico? E abriu para estacionamento o recinto da feira semanal, junto ao mercado municipal.

Também os Vimaranenses reconhecem este problema. Veja-se o aumento do estacionamento irregular no terreiro de S. Francisco, na rua de Serpa Pinto, no Largo Martins Sarmento (Largo do Carmo). E a apropriação por privados das paragens de autocarros, às noites e fins-de-semana, na Alameda, Largo República do Brasil e Avenida D. Afonso Henriques. E a sobrelotação do campo das Hortas, do parque da estação da CP, do parque junto ao teleférico.

Mais, a política urbanística seguida pela Câmara tem diminuído significativamente o número de lugares de estacionamento disponíveis na via pública, como foi o caso da rua Dr. José Sampaio, rua Francisco Agra e campo das Hortas. E tudo isto tem levado a que os Vimaranenses que têm de se deslocar ao centro da cidade, em trabalho ou para resolver um qualquer problema quotidiano, tenham de recorrer a parques tão distantes do centro (identificado como Toural) como o GuimarãeShopping, o recinto da feira semanal, o campo das Hortas ou o parque do teleférico.

São os transportes públicos a solução?

Todos concordamos que os transportes públicos em Guimarães precisam de uma mudança urgente, por prestarem um mau serviço público à população. Mas o Francisco Brito lembra bem:

(…) essa rede não vai resolver todos os problemas dos vimaranenses. Como já referi, quer a habitação quer os locais de trabalho estão demasiadamente dispersos para que tal possa acontecer. Para além disso uma boa parte da população activa que reside na cidade não trabalha na cidade. E – pior! – do ponto de vista do acesso pedonal os limites reais da cidade são bastante menores do que os seus limites administrativos. Poucos são os que ousam vir a pé para o centro da cidade dos confins de Mesão Frio, das alturas de Urgeses e de Azurém e até do Salgueiral!

Mais, argumenta acertadamente que não se perspetiva que as mudanças na mobilidade apontem para uma redução do transporte particular:

pensando a 20 anos, essas questões deixam de fazer sentido, uma vez que se estima que, nessa altura, cerca de 60% dos carros que vão circular na UE serão veículos eléctricos. O futuro do sector não aponta para o desaparecimento do transporte individual. Tudo indica que se irá manter, mudando para um registo ecológico e automatizado (sem condutores). Depois, ver uma solução de aparcamento como um problema e ignorar a poluição causada pelos carros que andam às voltas (minutos, horas?) para estacionar é, no mínimo, curioso.

Guimarães é uma cidade de média dimensão, atendendo à sua população. Mas o centro da cidade tem uma dimensão bastante reduzida, mesmo comparando com outras cidades de dimensão semelhante (Braga) ou menor (Póvoa de Varzim, por exemplo).

Uma solução que passe por privilegiar a periferia do centro – como tem defendido a Câmara Municipal – não resolveu o problema. Antes tem contribuído para o lento definhar do centro da cidade. Mas isso é assunto para o próximo post.