A mobilidade na cidade I: o problema

André Coelho Lima apresentou esta semana uma primeira proposta para o seu projeto de cidade, que propõe uma serena revolução no espaço urbano, com estacionamento subterrâneo no Toural e Campo da Feira e reorganização da circulação automóvel na zona.

Muitas têm sido as opiniões emitidas sobre a proposta. Mas vamos pelo princípio: a mobilidade na cidade é um problema? Existe falta de estacionamento na cidade? Há necessidade de alteração do desenho atual da circulação automóvel?

A meio ver a resposta a todas estas questões é uma: sim.

Guimarães.png
Printscreen do Google Maps com indicação de live traffic às 15:30 de 29/03/2017.

A Câmara Municipal de Guimarães concorda também. Tem construído diversos parques de estacionamento na periferia do centro nevrálgico da cidade, alegando que tem de haver mudanças de hábitos. Estes parques de estacionamento caracterizam-se por uma dimensão pequena (Mumadona e Plataforma das Artes) e média (estádio). Mas estas soluções têm sido insuficientes, o que motivou a apresentação do projeto de parque de estacionamento para a Caldeiroa.

E esta insuficiência tem sido também reconhecida pela Câmara Municipal, embora sem o assumir. Senão, como explicar a mudança na política de tolerância zero ao estacionamento irregular neste mandato autárquico? E abriu para estacionamento o recinto da feira semanal, junto ao mercado municipal.

Também os Vimaranenses reconhecem este problema. Veja-se o aumento do estacionamento irregular no terreiro de S. Francisco, na rua de Serpa Pinto, no Largo Martins Sarmento (Largo do Carmo). E a apropriação por privados das paragens de autocarros, às noites e fins-de-semana, na Alameda, Largo República do Brasil e Avenida D. Afonso Henriques. E a sobrelotação do campo das Hortas, do parque da estação da CP, do parque junto ao teleférico.

Mais, a política urbanística seguida pela Câmara tem diminuído significativamente o número de lugares de estacionamento disponíveis na via pública, como foi o caso da rua Dr. José Sampaio, rua Francisco Agra e campo das Hortas. E tudo isto tem levado a que os Vimaranenses que têm de se deslocar ao centro da cidade, em trabalho ou para resolver um qualquer problema quotidiano, tenham de recorrer a parques tão distantes do centro (identificado como Toural) como o GuimarãeShopping, o recinto da feira semanal, o campo das Hortas ou o parque do teleférico.

São os transportes públicos a solução?

Todos concordamos que os transportes públicos em Guimarães precisam de uma mudança urgente, por prestarem um mau serviço público à população. Mas o Francisco Brito lembra bem:

(…) essa rede não vai resolver todos os problemas dos vimaranenses. Como já referi, quer a habitação quer os locais de trabalho estão demasiadamente dispersos para que tal possa acontecer. Para além disso uma boa parte da população activa que reside na cidade não trabalha na cidade. E – pior! – do ponto de vista do acesso pedonal os limites reais da cidade são bastante menores do que os seus limites administrativos. Poucos são os que ousam vir a pé para o centro da cidade dos confins de Mesão Frio, das alturas de Urgeses e de Azurém e até do Salgueiral!

Mais, argumenta acertadamente que não se perspetiva que as mudanças na mobilidade apontem para uma redução do transporte particular:

pensando a 20 anos, essas questões deixam de fazer sentido, uma vez que se estima que, nessa altura, cerca de 60% dos carros que vão circular na UE serão veículos eléctricos. O futuro do sector não aponta para o desaparecimento do transporte individual. Tudo indica que se irá manter, mudando para um registo ecológico e automatizado (sem condutores). Depois, ver uma solução de aparcamento como um problema e ignorar a poluição causada pelos carros que andam às voltas (minutos, horas?) para estacionar é, no mínimo, curioso.

Guimarães é uma cidade de média dimensão, atendendo à sua população. Mas o centro da cidade tem uma dimensão bastante reduzida, mesmo comparando com outras cidades de dimensão semelhante (Braga) ou menor (Póvoa de Varzim, por exemplo).

Uma solução que passe por privilegiar a periferia do centro – como tem defendido a Câmara Municipal – não resolveu o problema. Antes tem contribuído para o lento definhar do centro da cidade. Mas isso é assunto para o próximo post.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s