A semana que passou #4

5 anos da CEC 2012

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Foto: Mais Guimarães.

A 21 de Janeiro celebramos o 5.º aniversário do começo oficial do evento Guimarães – Capital Europeia da Cultura 2012, um aniversário que ficou marcado pelo início de um primeiro debate sobre o legado da CEC2012.

O tiro de partida foi dado pelo Samuel Silva, no Reflexo Digital, onde levanta questões importantes. Em primeiro lugar, a vulgarização das capitais europeias, impossível de sustentar para uma cidade de média dimensão como Guimarães.

O que está em causa, a meu ver, é o seu lugar [da cultura] na política global para o concelho. Que deixou de ser central. O erro começou no anterior mandato quando. Ainda a Capital Cultural não estava terminada e já a cidade anunciava a intenção de ser Cidade do Desporto. E depois Capital Verde e Capital do Voluntariado, ideia entretanto abandonada. O poder político não percebeu que a mais-valia de ser Capital Europeia da Cultura estava precisamente no facto de se ser Capital Europeia da Cultura – a rede a que esse estatuto dava acesso, a capitalização da criação aqui feita e das estruturas que aqui trabalharam –, preferindo apostar numa ideia de “cidade de capitais” ou “cidade de eventos”.

(…) O caminho para cidades pequenas e médias é a especialização. Perceber onde é que é diferente das demais e tornar esse aspecto central em toda a sua política pública. Em Guimarães, não podia ser outra a aposta que não a Cultura. Por causa da importância histórica da CEC, por causa do seu sucesso e pelo facto de não haver, à escala global, nenhuma outra cidade desta dimensão com a mesma vitalidade cultural e artística.

A Câmara Municipal e elementos do Partido Socialista focaram-se na repetição do mantra do comprometimento da Câmara com a cultura, da necessidade de apoio do Governo central, da comparação com Lisboa e Porto, e da sempiterna “excelência” do que se faz. Paulo Silva salientou o que de bom se fez, a nível do edificado, da criação artística (a emergente cena musical vimaranense – tábua de salvação para quem precisava urgentemente de um foco de criação artística de valor em Guimarães) e da refundada programação teatral. No Freepass Guimarães relembra-se o que ficou, o valor que existe (e em na maior parte já existia), o papel da Câmara e d’A Oficina, terminando com uma confissão de saudade:

(…) o legado de Guimarães 2012 é pesado e ficou um pouco esquecido. Mas ficou o conhecimento e a experiência de um ano intenso e que agora se vai repartindo por entre festivais, tanto de dança como teatro ou música, ou apenas em pequenos eventos.

Questões que permanecem

É muito importante que Guimarães discuta o balanço da CEC2012. Talvez este não seja o ano ideal para que esse debate se faça – mas é um debate urgente. Porque, é importante que tenhamos noção: do início do século até 2012, Guimarães é provavelmente o concelho do país – melhor dizendo, a cidade do país – que proporcionalmente mais investimento público recebeu.

É importante discutirmos se o resultado e o impacto de tanto investimento é proporcional ao esforço que foi feito – pelo país e pelos Vimaranenses.

A criação cultural em Guimarães é hoje significativamente maior – e de maior qualidade – do que era antes de 2012? Há um aumento da capacidade instalada (de produção, de públicos, de criação artística) na cidade – e não só na Oficina – proporcional ao investimento? As nossas instituições culturais cresceram e valorizaram-se com a CEC2012? Até que ponto se concretizou a promessa da mudança de paradigma económico, assente numa economia criativa? Hoje Guimarães é verdadeiramente um modelo de desenvolvimento à escala europeia? Ou a ânsia dos sucessos imediat(ic)os das capitais europeias cegou os nossos governantes, que se perderam entre tanta ambição?

O discurso político oficial permanece o mesmo: a governação da Câmara, na Cultura (como em tudo), é de “excelência”. Mas não sustentam essa suposta excelência em nenhum indicador: públicos, sustentabilidade, investimento (público e/ou) privado, criação artística, criação de emprego, etc.

Sejamos claros: foi bonita a festa. E serviu para que Guimarães completasse a regeneração urbana e alargasse a reabilitação a outras áreas degradadas da cidade, valorizando-a como um todo. Construíram-se também bons equipamentos (independentemente da discussão sobre a sua necessidade, sobre o modelo de gestão cultural para o concelho, ou da sua viabilidade – económica ou cultural). Guimarães é hoje uma cidade invejável do ponto de vista dos equipamentos culturais. E isto gerou atratividade, turística e mediática. E teve como efeito secundário a valorização imobiliária e o ter permitido a Guimarães mitigar a grande crise económica que Portugal viveu nesses anos.

Do ponto de vista cultural, há por estes dias novos elementos surpreendentes e positivos. A nova programação de teatro d’A Oficina aponta no sentido em que se devia ter apostado desde há mais de uma década: formação de públicos, capacitação das estruturas existentes (principalmente das que não são da Câmara), valorização e crescimeto conjunto, com forte integração na realidade sócio-cultural local. Mas surge num momento em que Guimarães continua ainda a viver a ressaca de 2012. Uma ressaca que tem sido dura. E que dura…

Notas avulsas

É lamentável o título que a Mais Guimarães escolheu para retratar uma intervenção em que o vereador Ricardo Araújo criticava a duplicidade de critérios da Câmara Municipal, ao calar-se perante um novo Orçamento de Estado que volta a nada contemplar a nível de apoios para a cultura em Guimarães. Este jornal resumia uma intervenção de fundo ao contrário do que foi dito: “Oposição critica apoio estatal para a cultura”, quando o que Ricardo Araújo fez, como se via no corpo da notícia, era quando muito criticar a falta de apoio estatal para a cultura.

Em ano de eleições, a Câmara Municipal quer que os Vimaranenses contribuam com ideias para o concelho. Uma iniciativa que surge em paralelo com o lançamento da plataforma de debates do Partido Socialista, no qual pretendem construir a base do seu programa autárquico. Esta semana, André Coelho Lima chamava à atenção da confusão entre o que é da esfera do município e o que é da esfera da luta partidária, a propósito da partidarização da Capital Verde Europeia. A confusão continua. Os Vimaranenses que não se surpreendam: estou certo que veremos parte das propostas apresentadas no concurso de ideias vertidas no programa eleitoral do PS.

No final da semana soubemos da partida de Rui Barreira da direção distrital da Segurança Social. Sou parcial, pela estima e amizade que nutro por ele. Mas admiro profundamente a coragem como ao longo dos anos resistiu, sempre com o mesmo espírito de serviço público e de bons princípios democrata-cristãos e humanistas. Admiro a sua capacidade de resiliência. Foi e é polémico. Tomou decisões difíceis. Lutou contra interesses instalados nas poeiras das burocracias do Estado. Foi vilipendiado. Ofendido na sua integridade profissional e pessoal. Tentaram pressioná-lo por todos os meios – e muitos deles verdadeiramente desprezíveis. A meu ver, o Rui Barreira foi um dos que ajudaram a contribuir para que o país mantivesse alguma coesão social ao longo de um período muito duro de crise financeira, onde o apoio da Segurança Social foi fundamental. Agora, segue-se a luta no PS pelo lugar que deixa.

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