Nicolinas fora de época

pinheiro2

Fotografia de nicolinas.pt.

Todos os anos, as Festas Nicolinas alimentam uma ou duas polémicas na cidade, que tipicamente acontecem em meados de Novembro e se arrastam ou até ao final das Festas ou, quando a coisa é mais séria, até ao Natal.

Este ano houve duas: o “convite” aos Nicolinos para a receção aos Reis de Espanha e a classificação como património imaterial. Se a primeira se encerrou em si, já a segunda foi-se arrastando, primeiro porque a Câmara Municipal, picada por André Coelho Lima, atirou o tema para meados de Dezembro, seguidas de uma intervenção de Monteiro de Castro em reunião de Câmara que a questionava sobre a postura do investigador a quem esta encomendara um estudo. E foi esta intervenção que incendiou a polémica. Esser Jorge e Casimiro Silva criticaram o engenheiro por questionar os critérios de um sociólogo/antropólogo. Orlando Coutinho responde, tem réplica e insiste.

Pelo caminho, no Reflexo, André Coelho Lima e Samuel Silva escreveram também sobre a classificação das Nicolinas como património imaterial da UNESCO, o primeiro a defender a posição apresentada sobre o tema, o segundo a questionar a sua verdadeira valia.

Por mim, abstenho-me de discutir os méritos científicos de Jean-Yves Durand. Mas não deixo de estranhar que a Câmara Municipal tenha encomendado um estudo para analisar e avaliar a candidatura das Nicolinas a Património Imaterial da UNESCO a um conhecido crítico das classificações da UNESCO.

E, claro, não se pode esquecer o mais recente de todos os patrimónios, ou pelos menos o que foi mais recentemente identificado e instrumentalizado, o hoje tão propalado património imaterial, ao qual a UNESCO deu nos últimos anos uma visibilidade tanto mais problemática quanto se trata obviamente do tipo de património mais difícil de identificar, de objectivar. É também em relação a este que se torna mais patente a tensão entre tradição e inovação, porque práticas culturais “intangíveis” podem ser caracterizadas por uma fluidez tal que qualquer patrimonialização, pelo seu efeito de designação e de fixação, constitui ela própria uma destruição do seu objecto ao anular-lhe toda a dinâmica evolutiva.

Jean-Yves Durand

Ora, não é crível que a Câmara Municipal, ao encomendar o estudo a este cientista em 2011, desconhecesse esta sua posição a priori sobre o tema do mesmo estudo.

Mais difícil ainda de aceitar é a sucessão de críticas que foram sendo apresentadas à possibilidade da candidatura, nas sucessivas “apresentações prévias” do estudo, refletidas no que dali transpirou para a comunicação social. Em 2014, o Público noticiava que “Guimarães anda a estudar as Nicolinas, mas pode nem as candidatar à Unesco”, e o JN ia mais longe, afirmando que “Álcool juvenil castiga Festas Nicolinas na UNESCO”. Em 2016, segundo relatos indiretos, a comunicação sobre o estudo terá seguido o mesmo caminho, com novo elencar dos problemas e dificuldades.

dsc03079

Não penso, com isto, que devesse o cientista estar inibido enquanto tal de desenvolver a sua investigação. Mas a verdade é que são só estes pontos negativos e dificuldades que acabam por sair a público do estudo em curso, principalmente tratando-se de um estudo encomendado com um propósito. E a situação torna-se tanto mais caricata quando tudo o que foi divulgado até ao momento foram “conclusões prévias” de um estudo que ainda ninguém conhece verdadeiramente, porque está ainda em preparação… vai para 6 anos!

A meu ver, a Câmara Municipal tem sido negligente no seu papel neste processo. Não porque devesse andar a correr “a toque de caixa” para preparar essa candidatura, contra ventos e marés. Mas se o intuito era preparar ou estudar a candidatura, então deveria salvaguardar a dimensão pública e comunicacional do seu trabalho. Devia limitar previamente os eventuais danos causados por estas intervenções públicas do cientista encomendado.

E, passados tantos anos após o início deste processo (que começou lá bem longe em 2005), a verdade é que quase nada foi feito. Razão tinha António Amaro das Neves num reparo que fazia à situação das festas e candidatura: faltam estudos, falta conhecimento sobre as festas. Os estudos existentes são muito antigos, e de um carácter histórico (incompleto) ou memorialista. Há algumas teses de mestrado e relatórios científicos (alguns deles com afirmações que são verdadeiras aberrações, como a das supostas violações useiras nas Nicolinas), mas sobre dimensões particulares, como o turismo ou a valia patrimonial.

Faltam estudos históricos de fôlego, sobre as origens das festas, sobre a sua evolução ao longo dos séculos, cruzando fontes e comparando práticas. Faltam estudos e relatos mais contemporâneos, sociológicos. Falta construir e estabelecer um corpo de conhecimento sobre as Festas, que não é feito com apenas um estudo singular. As Nicolinas ainda hoje vivem de mitos e de tradições orais. E se esta é uma dimensão fundamental daquilo que elas são, nada perdiam se esta fosse complementada por estudos mais profundos sobre o passado, evolução e presente.

Porque aí estaríamos verdadeiramente a valorizar as Festas Nicolinas, independentemente do resultado do processo da candidatura a património imaterial da UNESCO que, em bom rigor, não existe. E este é que seria o papel da Câmara Municipal nesta estória.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s